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P - E quanto à Cisjordânia? Israel quer continuar lá?
R - Não. Temos dito isso. A diferença entre nós e os palestinos nas negociações de paz é algo em torno de 3% ou 4% do território. ConstruÃmos colônias porque havia atos de terrorismo, mas as coisas mudaram nos últimos 40 anos. No começo, os palestinos se recusavam a negociar, e continuam assim até hoje. Eu digo: meu Deus, se trata-se apenas de 3% ou 4%! Vamos tentar negociar, vamos fechar essa diferença. Eles não deveriam rejeitar essa negociação. Pode ser um pouco desagradável para mim dizer isso, mas quando a Cisjordânia estava sob o poder da Jordânia, os jordanianos a ofereceram para os palestinos? E quando Gaza estava sob o poder do Egito, os egÃpcios a ofereceram alguma vez aos palestinos? Os únicos dispostos a oferecer somos nós. E isso apesar do fato de que parte dos palestinos faz parte de um grupo terrorista, o Hamas. Eles dizem: "devolvam-nos a terra". Mas nunca houve um Estado palestino. Então, eles nunca tiveram essa terra. A Cisjordânia estava sob o poder da Jordânia. E Gaza, do Egito. Quando se trata da Cisjordânia, porém, queremos ter certeza de que não vai se repetir lá o que aconteceu em Gaza. Nós saÃmos e eles começaram a atirar. Temos o direito de defender nossas vidas.
P - Mas como Israel pode evitar algo assim? Vai controlar os palestinos para sempre?
R - Não. Mas queremos que eles tenham uma polÃtica de paz. Queremos que eles controlem seu próprio povo. Queremos o que é mais básico entre nações: a paz.
P - Em relação à Cisjordânia. A maior parte do mundo, incluindo seus aliados, como os americanos, não entendem como Israel está, por um lado, disposto a negociar a paz e, ao mesmo tempo, não aceita pelo menos congelar a construção de assentamentos. Como o sr. explicaria isso ao mundo?
R - Não somos uma empresa de relações públicas. Hillary Clinton reconheceu que Israel avançou bastante nesse assunto. Quero explicar algo importante: há centenas de milhares de colonos na Cisjordânia. Eles construÃram casas, cultivaram a terra, construÃram famÃlias. Não é tão fácil movê-los. Certo ou errado, durante os 40 anos em que reinou o terrorismo na região, construÃmos assentamentos. Mas é o que eu sempre digo: é mais fácil fazer omeletes com ovos do que ovos com omeletes. à muito difÃcil remendar essa situação depois de 40 anos. Os colonos são seres humanos. Não são máquinas que você pode, como num jogo de xadrez, mover de lá para cá. Temos que arranjar soluções para isso.
P- O sr. acredita que Israel errou quando decidiu construir colônias na Cisjordânia?
R - Não foi um erro na época, porque estávamos sendo abertamente atacados. Os terroristas explodiram casa em Jerusalém e em outros lugares. Eu perdi muitas eleições no passado. E por quê? Porque toda vez que tentava falar sobre paz, vinha uma bomba e acabava com tudo. Dizem que Israel tem um "problema de imagem". Para mim, trata-se de sangue, de carne, de vidas.
P - Foi o que aconteceu nas eleições de 1996, logo depois do assassinato de Yitzhak Rabin?
R - Eu tinha 20% de vantagem nas pesquisas quando um ônibus foi explodido em Jerusalém. Nunca vou esquecer esse dia. Era 7h da manhã e eu estava a caminho do escritório quando meus seguranças me avisaram sobre a explosão. Fui direto para o local, uma praça importante em Jerusalém. A praça inteira estava vermelha, repleta de sangue e de partes de corpos. Milhares de pessoas estavam lá. Quando cheguei, elas começaram a gritar: "assassino!", "matador!" "traidor!". "Olha o que você faz com a sua paz!". No dia seguinte, a mesma cena em Tel Aviv. No próximo, novamente em Jerusalém.
P - O sr. ficou com medo de que alguém pudesse atacá-lo?
R - Com medo, não. Mas eu sabia que havia perdido as eleições. Sabia que havia perdido a maioria dos votos.
P - Naquele momento, o sr soube?
R - Claro. Mas antes disso, soube que havÃamos perdido vidas. Portanto, quando você lê nos jornais é uma história. Quando você presencia o fato, é outra.
P - Como o assassinato de Rabin mudou Israel? Alguns dizem que o processo de paz morreu também.
R - Foi uma interrupção que prejudicou, ou atrasou, o processo de paz. Mas a maioria dos israelenses quer a paz, e ela se mantém viva. Rabin foi uma vÃtima dessa mesma história que acabei de relatar.
P - A divisão dentro da sociedade israelense, que se manifestou tão tragicamente no dia do assassinato, continua?
R - Sim, mas hoje em dia vê-se que mais e mais pessoas estão adotando o caminho que Rabin e eu sugerimos. Hoje, até mesmo a direita israelense é a favor de uma solução de dois Estados para dois povos, o que não era verdade antes. Os que são contra a paz são uma minoria.
P - O que o sr. diz contraria o que a maior parte do mundo pensa, que os israelenses se tornaram mais direitistas depois do assassinato. O sr. diz que eles se tornaram mais de esquerda?
R - Israel foi para a direita, mas no sentido de "direito", de "certo", que significa ser a favor da paz.
P - O sr. pretende conversar com o presidente Lula sobre o processo de paz e o apoio do Brasil a Israel, por exemplo, nas Nações Unidas?
R - Certamente.
P - Que argumentos o Sr vai usar para convencê-lo?
R - Exatamente tudo o que disse até agora. Levarei a Lula a mesma mensagem. Direi que Israel está preparado para a paz e que já demonstrou isso em quatro ocasiões. Mas queremos ter certeza de que teremos paz e segurança. Não tenho duas mensagens. Tenho apenas uma.
P - O presidente americano Barack Obama tem buscado uma aproximação com o mundo muçulmanos e criticou o tratamento israelense aos palestinos no discurso que fez no Cairo. Como o sr. avalia a administração de Obama no que tange o processo de paz?
R - Desejo que ele tenha sucesso. Nós não consideramos os muçulmanos nossos inimigos. Não lutamos contra sua religião, contra seu povo. Não lutamos contra uma ideia. O que estamos tentando fazer é defender nossas vidas.
P - A maioria dos israelenses não parece gostar de Obama. Israel talvez seja o paÃs no qual ele é menos popular, com apenas 5% a 6% de aprovação.
R - Acho que quando os israelenses começarem a seguir as posições de Obama, eles vão mudar de ideia. A amizade entre Israel e Estados Unidos é profunda e permanente. Eu considero Obama um amigo de Israel. E espero que mais pessoas se deem conta disso.
P - O sr. recebeu o Prêmio Nobel da Paz, assim como Obama. Mas muitos dizem que ele não merecia, que era muito cedo para essa premiação. O que o sr. pensa?
R - Eu acho que ele merece sim o Nobel de Paz. Penso que, em pouco tempo, ele criou no mundo uma clima de esperança e otimismo. Essa é uma conquista polÃtica que ele alcançou com brilhantismo. Neste momento, ele está enfrentando todas as controvérsias que vêm com o cargo. Mas é muito cedo para julgar. Eu não concluiria nada, por enquanto. Quando eu era uma criança, me disseram que o mundo tinha homens bons e maus. Bons reis e maus reis. Quando eventualmente cresci, percebi que, infelizmente, o "bem" e o "mau" vêm juntos. à muito difÃcil separá-los. Justamente por isso, não é fácil fazer escolhas. Presidentes, reis e primeiros-ministros têm, sobre suas mesas, escolhas mescladas. O filósofo Martin Buber disse: "Sob essas circunstâncias, o menos ruim é o certo". Não é tão claro quanto se pensa.
P - O sr. se tornou muito popular em Israel. à considerado um sÃmbolo do paÃs. Muitos israelenses parecem acreditar que o sr. não tem idade. O sr. acredita que testemunhará o que o chamou de "Novo Oriente Médio", a paz regional, ainda em vida?
R - Tenho 100% de certeza disso. Não posso negar minha idade, mas posso questionar o que leva à velhice. Se idade é um número e anos, velhice é apenas questão de percepção. Não acredito que, porque sou mais velho, não posso ter esperanças ou crenças. Estou no serviço público desde o primeiro dia de existência de Israel, e mesmo antes disso. Na maior parte da minha vida fui polêmico. Agora, sou popular. Não sei se é melhor ou pior [risos].
P - Quem mudou, o sr. ou os israelenses?
R - Bem, meu atual posto é de uma natureza distinta. Na polÃtica, você luta. E eu fui um polÃtico lutador. Não me impressionava com pesquisas, nem antes nem hoje. Acho que pesquisas são como perfume: são boas de cheirar, mas perigosas de engolir.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u648988.shtml
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